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Peças artesanais do interior do Acre, dos confins de Minas, do Mato Grosso, de Pernambuco e de tribos indígenas espalhadas pela Região Norte e Centro-Oeste. Tudo isso pode ser encontrado em duas lojas separadas por poucas quadras, numa área mais elevada do bairro Consolação.

Na Rua Frei Caneca, quase esquina com a Peixoto Gomide, situa-se o Paiol, que vai completar dez anos em novembro, já com uma filial em Pinheiros, na Rua Fradique Coutinho. Balõezinhos de Ubatuba, galinhas D’Angola decorativas fabricadas em Minas, filtros de barro da Serra da Capivara (PI) e Vale do Jequitinhonha que retêm impurezas da água e decoram ao mesmo tempo…Tem-se a impressão de que cada centímetro da loja de apenas 40 metros quadrados é aproveitado para expor mercadoria de um canto diferente do País. “Muita gente que vem aqui quer expor seus trabalhos, mas simplesmente não tenho espaço”, diz o proprietário, Lucas Lassen, um ator nascido em Taubaté com ascendência dinamarquesa.

Aos 20 e poucos anos, Lassen percebeu que sua atividade teatral não lhe pagaria todas as contas, longe disso. Aproveitou então uma dica de sua cunhada à epoca, uma mineira que ia buscar na terra natal os famosos tapetes lá fabricados por teares manuais, uma tradição que remonta à era colonial. As mercadorias eram vendidas na feira de artesãos do Shopping Frei Caneca. Em incursões posteriores por Minas, Lassen passou a apostar nos “tapetes peludos” e em outras mercadorias, como as Galinhas d’Angola talhadas em madeira. Reina por lá uma convicção popular de que essa peça atrai sorte. Lassen de certa forma comprovou isso na prática. Após vender todas as peças que havia adquirido em pequenas quantidades, apostou alto e “importou” 500 peças de Minas, vendendo-as todas até  o Natal.

Percebendo a necessidade de um ponto fixo para poder trabalhar todos os dias, não apenas aos finais de semana, Lassen se instalou primeiramente no Multi Shop da Rua Pelotas, na Vila Mariana, para depois se fixar na Frei Caneca, num ponto desprovido de estacionamento, mas interessante mesmo assim. “Há um farol que obriga os carros a parar. Os motoristas invariavelmente viram o pescoço e veem a minha vitrine. É um verdadeiro marketing do pescoço.”

Um relacionamento amoroso o levou para Penambuco, a primeira de muitas paradas para compras de mercadorias de peças do rico artesanato nordestino. Incansável na busca por produtos que lhe encham as prateleiras, Lassen foi parar, no início do mês, em Epitaciolândia, no Acre, de onde trouxe sandálias de látex confeccionadas pelo seringueiro e artesão José Rodrigues, o Doutor Borracha.

“Nunca fui um Rolando Boldrin (músico, ator e apresentador do programa Senhor Brasil, conhecido por divulgar música regional de todas as partes do País), mas essas viagens todas me mostraram como o Brasil desconhece o Brasil. A diversidade, riqueza e criatividade desses trabalhos é impressionante.”

Por falar em Brasil, o momento histórico em que transcorreram as manifestações contra Dilma Rousseff na Avenida Paulista foi especialmente favorável para seus negócios. “O pessoal do bairro não tem o hábito de andar por aqui a pé, faz tudo de carro. No período das manifestações, muita gente com a camisa da seleção visitou enfim a loja, que fica no caminho para a Paulista. Vendi bem.”

Também no caminho para a Paulista, a Casa das Culturas Indígenas, localizada na Galeria Ouro Velho, na Rua Augusta, tornou-se o lugar a ser conhecido por quem se interessa por esse tipo de artesanato em São Paulo. A proprietária é Helena Shizue Yamanaka, que já prestou serviços como terceirizada à Funai e é irmã de uma funcionária da fundação. A loja de Helena está referenciada em guias turísticos e costuma ser alvo de visitas de muitos turistas franceses e norte-americanos, segundo ela. Cunhada de um índio xavante, a empreendedora observa que seu estabelecimento é um ponto de comercialização procurado pelos artesãos indígenas. “Só gostaria que recebesse mais clientes brasileiros mesmo, mas falta divulgação.”

O grande evento anual de divulgação de sua loja é a mostra realizada sempre em abril, Mês do Índio, no Conjunto Nacional. “Temos o apoio do Sebrae. Todos os anos trazemos três índios, que fazem pinturas de pele e divulgam o trabalho.”

Além desses dois pontos já tradicionais no bairro da Consolação, São Paulo ganhou mais um espaço comercial voltado para produção artesanal. Trata-se da Artiz, loja nova do Shopping JK Iguatemi concebida pela ONG Artesol. Segundo a organização, a iniciativa impacta cerca de 50 comunidades brasileiras que se dedicam a técnicas tradicionais como cestaria, cerâmica, marchetaria e bordados, entre outras.

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