NORDESTE

Local onde os primeiros exploradores portugueses aportaram no final do século XV, a região Nordeste foi também, mais tarde, o principal ponto de entrada de grande parte dos navios de escravos negros vindos da África trazidos ao país. Essa mistura do negro com o branco, temperada pelas tradições indígenas de cada região e a forte presença do catolicismo, criou uma grande diversidade de expressões culturais na região, e que está refletida nas múltiplas opções de artesanato que cada estado oferece.

Atualmente, 56,5 milhões de pessoas vivem na região Nordeste do Brasil, distribuídas entre seus nove estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Dentre estes, os que mais se destacam por seu artesanato são:

Bahia

Local de chegada dos primeiros portugueses em 1500, a Bahia é considerada o berço de nascimento do que se tornaria futuramente o Brasil. Terra do candomblé (religião trazida pelos escravos africanos) e seus orixás, da capoeira e da música rítmica dos tambores, este é o estado brasileiro no qual a cultura negra está mais presente. Essa influência – tão explícita na obra de alguns de seus filhos famosos, como Jorge Amado, Caetano Veloso e Gilberto Gil – é também evidente na produção de artesãos como Noemia Gomez, que produz orixás a partir de filtros de café reutilizados, e Carolina Leão, cujos santos, orixás e animais criados em papel machê e papietagem são conhecidos pela sua delicadeza e colorido.

Contudo, apesar de muito influente, o negro não foi o único a marcar o artesanato baiano. Ao longo dos séculos, muitas outras expressões consideradas hoje como tipicamente baianas ganharam forma. Alguns exemplos disso são o colorido crochê tradicional do distrito do Raso usado para forro de almofadas, os trançados e bordados em palha de piaçava (de tradição indígena) e os pássaros em madeira de Santa Brígida.

Pernambuco

Primeiro local de exploração do pau-brasil, árvore de cuja resina era extraída uma tintura vermelha para tecidos muito apreciada na Europa e que daria depois nome ao país, o artesanato de Pernambuco tem uma ligação forte com o uso da madeira, como é o exemplo dos bonecos criados por Mestre Heleno, na cidade de Tracunhaém, as figuras esqueléticas de Marcos de Sertânia, inspirados nos personagens do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e os bancos no formato de animais feitos pelos artesãos de Petrolina.

Contudo, apesar dessa relação com a madeira, talvez o material mais associado ao artesanato de Pernambuco seja o barro. Profundamente ligado à cidade de Caruaru e ao trabalho figurativo criado por Mestre Vitalino (1909-1963) – considerado um dos mais influentes artesãos brasileiros – o trabalho com barro segue como uma expressão forte do estado. Mestre Gaudino (conhecido como “surrealista do sertão”), Zé Caboclo, Luiz Antônio e Manoel Eudócio (1931-2016), último discípulo de Mestre Vitalino, são alguns nomes que ajudaram a levar adiante essa tradição local.

Apesar da presença da madeira e do barro, não se pode falar de artesanato em Pernambuco sem que o nome de J. Borges seja citado. Artista natural da cidade de Bezerros (também famosa pelas máscaras dos Papangus de seu Carnaval), Borges começou a trabalhar com gravura em madeira inicialmente para ilustrar histórias de cordel. Contudo, esse trabalho ganhou gradualmente fama nacional e o levou em 2002 a ser um dos treze artistas escolhidos pela ONU para ilustrar seu calendário anual.

Ceará

Famoso pela beleza das praias de seu litoral tanto quanto pela aridez de seu interior, os contrastes geográficos do estado influenciaram o próprio contraste entre suas diversas produções artesanais. Do trabalho com areia colorida em Morro Branco, que representa paisagens litorâneas, à cerâmica de Cascavel e aos bonecos de pano das Bonequeiras do Pé de Manga, o Ceará possui uma produção artesanal importante dentro da região Nordeste. Em meio a essa vasta produção, dois nomes merecem destaque: Espedito Celeiro e Mestre Noza.

Filho de um artesão que trabalhava com couro, Espedito Celeiro trabalhou desde cedo com o pai na criação de sandálias, bolsas e outros produtos ornados com padrões inspirados nos ciganos que passavam na região e que hoje constituem uma estética profundamente associada à vestimenta do sertão nordestino. Já o trabalho desenvolvido por Mestre Noza (1897-1983) ajudou a consolidar outro aspecto que hoje é altamente ligado ao Ceará: o profundo sentimento religioso de seu povo.

Desde a adolescência, Mestre Noza vive com a família em Juazeiro do Norte, cidade nordestina famosa por sua forte religiosidade, influência do trabalho social realizado por Padre Cícero na região do Cariri. O artista começou a criar um trabalho de escultura em madeira no início do século XX ao talhar santos e outras figuras desse imaginário que são hoje emblemáticas da cultura local. No ano de sua morte, foi criada a Associação Mestre Noza, onde hoje trabalham artistas como Cícero Ferreira e Francisco Graciano (filho do também famoso Manoel Graciano).

Alagoas

Uma das expressões mais conhecidas do artesanato do pequeno estado de Alagoas é o chamado filé. Fortemente ligado à região do litoral, passada de geração a geração, o filé é uma técnica de bordado com origem francesa e que foi apropriada pelas mulheres de pescadores da costa nordeste do Brasil no século XVIII, quando as redes de pesca eram usadas como suporte. Com padrões muito complexos, o filé alagoano possui hoje indicação geográfica devido à importância de sua ligação com essa região.

Além do filé, merecem destaque em Alagoas o bordado de Penedo, os trabalhos com figuras humanas dos artistas da Ilha do Ferro e, principalmente, os ceramistas de Capela, representados na Loja Paiol pelo trabalho de Nena Capela, discípula de João das Alagoas, famoso ceramista que recebeu em 2011 o título de Patrimônio Vivo do Estado.

Paraíba

Local de nascimento de nomes importantes da cultura brasileira, como Augusto dos Anjos, José Américo de Almeida, José Lins do Rêgo, Assis Chateaubriand, Ariano Suassuna e Celso Furtado, a Paraíba possui uma rica história cultural. Da mesma forma como nos demais estados da região Nordeste, o artesanato paraibano divide-se entre a representação de figuras da fauna local e também do imaginário religioso católico brasileiro.

Dentre os trabalhos de artistas paraibanos trazidos pela Loja Paiol estão os coloridos palhaços feitos em papel machê criados por Babá Santana, esculturas de madeira que representam pássaros e outros animais criadas por Mestre Bento Sumé, e a hoje famosa cerâmica de Nenê Cavalcanti. Nascida numa família pobre de Alagoa Nova, no interior do estado, Cavalcanti aprendeu desde cedo a trabalhar o barro para fazer não apenas panelas e outros utensílios domésticos, mas também para confeccionar seus próprios brinquedos. Famosa por suas peças em terracota que representam anjos, santos, mulheres e outras figuras às vezes abstratas, o trabalho da artista é considerada hoje uma referência estética da Paraíba.

Piauí

Estado nordestino com o menor litoral, as principais expressões culturais do Piauí estão mais concentradas em seu vasto interior. Como é comum em muitos locais do Nordeste, as dificuldades da vida criada pela geografia semiárida, em conjunto com todo um imaginário católico, inspira temáticas como o trabalho em madeira que representa santos, anjos e cenas bíblicas, como Adão e Eva no Paraíso, criado por Mestre Expedito e os chamados Santeiros de Teresina, um trabalho muito influente até hoje para as novas gerações de escultores locais.

Além dessa produção, o Piauí possui outro atrativo que tem fascinado cientistas e artistas por décadas: o Parque Nacional da Serra da Capivara, criado em 1979 por esforço da pesquisadora Niéde Guidon. Conjunto de sítios arqueológicos mais importante do país (o Parque possui 737 catalogados), lá são encontradas em suas cavernas algumas das pinturas rupestres mais antigas que se tem conhecimento, muitas com quase 25.000 anos, fonte de conhecimento sobre como se expressavam culturalmente nossos mais antigos antepassados. Essas pinturas decoram hoje grande parte da produção de cerâmica artesanal da região.