SUDESTE

Formada pelos estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, habitada por 85 milhões de pessoas, a região Sudeste representa atualmente mais de 50% do PIB do país, apesar de ser paradoxalmente umas das menores regiões do Brasil (seus quatro estados estão distribuídos em apenas 924.620 km²).

Ponto de entrada dos colonizadores portugueses mais ao sul do país, as tradições do artesanato do Sudeste também estão, como no Norte e Nordeste, fortemente ligadas à mistura dos conhecimentos trazidos pelos colonizadores com as influências da cultura indígena local. Contudo, os dois fatores que mais influenciaram a criação de um caráter individual para essa produção, cujo principal representante é Minas Gerais, foram a descoberta do ouro e, com ela, a chegada de trabalhadores trazidos pela coroa portuguesa.

Maior centro de produção de artesanato no Sudeste, a posição ocupada por Minas Gerais não veio por acaso. Foi em suas terras que algumas das maiores jazidas de ouro brasileiras foram descobertas no século XVIII. Elas atraíram milhares de exploradores e, com eles, centenas de artesãos, muitos enviados de Portugal pela própria coroa portuguesa, prontos para suprir as demandas locais por produtos e serviços. Ceramistas, talhadores e, principalmente, trabalhadores de tear manual, traziam consigo um conhecimento técnico aprendido na Europa que tornaria Minas um centro de difusão de técnicas artesanais que séculos mais tarde se tornariam inseparáveis da sua cultura.

O estado de Minas Gerais é a região do Brasil onde a utilização do tear manual é a mais antiga e também a mais preservada, a qual remonta à chegada da família real, que trouxe consigo artesãos que confeccionavam cobertas e colchas para a corte. Maior região de tecelagem tradicional do estado, é nas cidades de Resende Costa, Muzambinho, Carmo do Rio Claro e Campanha que o uso tear de pedal é passado de geração a geração e no qual são criados tapetes, colchas e toalhas de design colorido e original, enquanto que em Prados (principalmente no distrito de Bichinho), o trabalho com tecido desenvolveu-se no famoso fuxico mineiro (desenhos decorativos em toalhas, colchas e capas de almofada com pequenos saquinhos de tecido no formato de flores).

Muitas outras produções artesanais ganharam status de tipicamente mineiras, como os trabalhos decorativos em pedra sabão do distrito de Santa Rita, próximo a Ouro Preto, e as diversas formas do Divino em madeira (imagem religiosa católica da pomba branca representativa do divino espírito santo). Contudo, aquela que, junto com o trabalho em tear, representa não apenas uma riqueza cultural da região, mas também a principal fonte de renda para muitas famílias, é a cerâmica do Vale do Jequitinhonha.

Situado no norte do estado de Minas Gerais, é nessa região muito pobre que o trabalho com o barro, realizado principalmente por mulheres, ganha formas características como moringas, vasos e até bonecas, cujas cores e desenhos são resultado da mistura de barro de diferentes tonalidades. Dentro dessa produção, dá-se especial destaque às artistas Dona Isabel, conhecida mestre desse ofício, e Anísia, cujos filtros de água em formato de pessoas são hoje muito famosos.

Ao contrário de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo incorporaram pouco dessa influência à sua cultura. Eles funcionavam mais como pontos de passagem para o interior, ou de escoamento da produção de ouro para a Europa. Desses estados, uma parte da produção está muito ligada à tradição indígena do litoral, como é o caso do trabalho com cabaças em formato de balões coloridos feito pela família Rebuá, em Ubatuba, e ao trabalho com barro. Além da cerâmica de influência indígena do Vale do Ribeira, os trabalhos mais significativos com esse material são feitos hoje pelas Paneleiras da cidade Goiabeiras, no Espírito Santo, cujas panelas para moqueca são consideradas entre as melhores do país, e pelas Figureiras de Taubaté, em São Paulo.

Núcleo de produção artesanal muito antigo no interior do estado, as Figureiras de Taubaté trabalham com símbolos folclóricos da região do Vale do Paraíba, como o Divino, santos, galinhas e uma diversidade de figuras cotidianas e do imaginário regional. A sua figura mais emblemática é o pavão azul, que é hoje o símbolo do artesanato paulista.